KATSEYE e a arte de transformar um girl group em símbolo cultural e espelho da própria internet
Uma análise de como um girl group recém lançado virou referência estética, cultural e digital sem jamais perder o timing da internet.
KATSEYE é aquele fenômeno curioso que aparece na sua timeline do nada, você acha que é só mais um grupo, e quando pisca já percebe que virou assunto, virou meme, virou campanha de marca e, principalmente, virou gente. Porque o que realmente me interessa nelas não é só o som, nem só o hype, mas a forma como elas se tornaram um produto cultural pensado milimetricamente para funcionar na internet e, ainda assim, soam absurdamente espontâneas. É raro um projeto ser tão fabricado e tão natural ao mesmo tempo, mas talvez isso diga menos sobre elas e mais sobre a nossa era, em que autenticidade virou não só valor, mas também arquitetura de branding. A coerência performática que antes era luxo virou requisito mínimo, e quem não entrega essa sensação de real acaba sumindo no feed antes mesmo do botão de seguir ser clicado.
O grupo, indicado ao Grammy 2026 na categoria de Best New Artist, é formado por seis integrantes, Sophia Laforteza, Manon Bannerman, Daniela Avanzini, Lara Raj, Megan Skiendiel e Yoonchae Jeong, e todas passaram pelo Dream Academy, um reality global que prometia criar o próximo girl group mundial. E, honestamente, ele cumpriu sua promessa, mas o relevante aqui é a mecânica. O Dream Academy, reality criado pela empresa coreana HYBE, casa de artistas como BTS, LESSERAFIM e Seventeen, em parceria com a americana Geffen Records, pegou o formato de survival show do K-pop, com o rigoroso de treinamento coreano, naquele modelo que une performance, vocal, dança, visual e media training e expandiu para uma escala global, onde cada participante era avaliada, votada e acompanhada em tempo real. O reality funcionava como uma incubadora de reputação, quase como uma campanha de branding contínua, em que cada corte de câmera moldava narrativas e fortalecia vínculos emocionais com o público. Era K-pop sem ser K-pop, era global sem ser genérico, era estruturado sem parecer roteirizado. E o mais interessante é que o programa virou, na prática, a narrativa de origem perfeita para um grupo que já nasceria com história, identidade e capital simbólico ao alcance de um clique.
O Dream Academy ganhou ainda mais alcance por ser exibido na Netflix, o que transformou o reality em produto global antes mesmo do grupo existir. E, claro, esse tipo de survival show sempre rende críticas como evil editing, tempo de tela desigual e narrativas fabricadas para gerar tensão. Mas, ironicamente, é exatamente isso que move a conversa. Os cortes viram tiktoks, os conflitos viram threads, cada injustiça percebida vira combustível para o fandom que puxa mutirão de votos no Twitter e sobe o nome da participante favorita pro trending topics. Do ponto de vista de marketing, é eficiente porque cria barulho, expectativa e vínculo emocional, aquele combo perfeito que transforma um programa em motor de buzz.
E, claro, o impacto não ficou só nas finalistas. O reality criou uma vitrine gigantesca, quase uma incubadora industrial de talentos que a própria internet ajudou a selecionar. As participantes Emily Kelavos, Samara Siqueira e Lexie Levin foram anunciadas em setembro como parte do futuro grupo global da HYBE com a Geffen, que ainda nem debutou, mas já carrega muita antecipação pela fanbase que as garotas conquistaram no programa. Por outro lado, a japonesa Mei Terada encontrou seu caminho no Say My Name, grupo de K-pop da iNKODE Entertainment que fez sua estreia no fim de 2024, enquanto a sueca Adéla Jergová lançou, em agosto desse ano, o álbum The Provocateur, que rapidamente conquistou público e crítica, além de ter sido anunciada como o ato de abertura da It’s Not That Deep Tour, nova turnê da cantora Demi Lovato em 2026. Isso reforça meu ponto central: o Dream Academy não era um funil, e sim uma plataforma de visibilidade, um pipeline de talentos moldado para a era do TikTok e dos fandoms hiperconectados.
No começo, o fandom do KATSEYE era majoritariamente k-popper, somos um público que reconhece os elementos que já mencionei de longe. Os sinais de formação, as etapas de aperfeiçoamento, a estética de trainee, tudo era imediatamente legível para quem já consome esse universo há anos. Mas o curioso é como elas transbordaram rapidamente para fora dessa bolha. Hoje é totalmente plausível que sua priminha de oito anos saiba a coreografia completa de Gnarly e que sua mãe tenha ouvido Touch em algum Reels de receita pro natal sem ao menos fazer ideia de que era estava tocando. Essa expansão orgânica entrega exatamente o tipo de sintonia cultural que departamentos inteiros de marketing e relações públicas tentam replicar, quase sempre com cara de coisa pensada em reunião de alinhamento.
A diversidade do KATSEYE não é estética, é identidade. Sophia é filipina-americana, Lara é indiana-americana, Manon é suíça com ascendência ganesa, Megan é havaiana com ascendência sueca e chinesa, Daniela tem herança latina e Yoonchae é coreana. Essa formação não funciona apenas como diferencial visual, mas como mecanismo de identificação direta. Em um mercado onde representatividade virou pauta obrigatória, elas oferecem uma narrativa que não soa publicitária, mas vivida. Cada integrante carrega códigos culturais diferentes que ampliam o alcance do grupo sem que seja necessário reforçar essa pluralidade de forma artificial. É brand awareness orgânico, sustentado por histórias reais e não por slogans.
Musicalmente, a trajetória delas é rápida e estratégica. Elas debutaram com o EP SIS (Soft Is Strong) e a faixa título Debut, abriram caminho com Touch, reforçaram identidade com Gnarly e agora estão no ciclo do EP Beautiful Chaos, com músicas como Gabriela, Mean Girls e M.I.A. Nada disso é aleatório. A cadência de lançamentos parece desenhada para manter constância algorítmica sem perder profundidade. É pop mainstream e chiclete, mas também flerta com hiperpop, com latinidades, com baladas calmas, com texturas experimentais, com um tipo de energia que conversa diretamente com públicos distintos. Um grupo que consegue agradar quem gosta de coreografia milimétrica, quem busca identificação latina, quem vive no TikTok e quem só quer música boa para colocar no carro. Essa espécie de engenharia narrativa funciona porque entende que cultura pop hoje se sustenta em micro comunidades e em múltiplos contextos de consumo.
E aí entra o ponto-chave: o KATSEYE foge de um dos maiores pontos de crítica ao K-pop tradicional, que é a sensação de engessamento e de falta de liberdade pessoal. Elas não operam naquela lógica de robôs perfeitamente treinados para nunca piscar fora do script. São jovens adultas que falam como jovens adultas, reagem como jovens adultas e apresentam falhas que o público interpreta como camadas de autenticidade. Isso é muito mais poderoso do que qualquer investimento em estética. Autenticidade virou moeda, virou ativo. Na publicidade, isso já é consenso há anos, mas poucas marcas conseguem executar de fato. Elas fazem parecer simples porque essa naturalidade se sustenta na formação delas e no relacionamento com o público, não em um manual de conduta.
E, se estamos falando de autenticidade como estratégia, impossível ignorar a campanha da GAP. Ela apareceu no momento perfeito. Enquanto a American Eagle enfrentava críticas intensas por sua campanha com Sydney Sweeney e seus “perfect jeans”, acusada de leituras racistas e eugenistas, a GAP posicionou o KATSEYE como resposta simbólica ao desgaste da concorrente. Um grupo global, diverso, carismático e alinhado ao que a internet espera de marcas que desejam sobreviver. A estética denim renovada, a energia jovem, a música marcante e a diversidade e pluralidade real configuraram a narrativa exata do espírito do tempo. Foi mais do que uma campanha, foi um reposicionamento. A GAP se tornou a marca que entendeu onde a Gen Z está olhando, enquanto a American Eagle parecia presa em uma estética ultrapassada (e ideais extremamente nojentos, diga-se de passagem).
Além de tudo, a representatividade LGBTQIA+ do grupo não é apenas um detalhe simbólico, é parte da identidade delas. Lara e Megan são abertamente sáficas, e Sophia, mesmo sem um rótulo explícito, sempre tratou sua sexualidade com naturalidade nas redes, muito antes de se tornar uma figura público, sem aquela preocupação de esconder ou performar neutralidade para agradar setores conservadores da indústria. Isso conversa diretamente com o público que acompanha o grupo, majoritariamente formado por mulheres jovens, muitas delas queer, bi ou lésbicas, que enxergam no KATSEYE uma camada de identificação que vai além do som ou da estética. E essa relação só se fortalece quando elas aparecem nos shows segurando bandeiras LGBTQIA+, fazendo discursos de apoio e deixando claro que estão alinhadas com essas causas não por obrigação, mas porque faz parte de quem são. A letra de Mean Girls leva isso ainda mais longe, citando meninas trans e identidades não binárias de um jeito leve, integrado, quase como se fosse óbvio incluir essas vivências em uma música pop. Em um período particularmente tenso para pessoas trans nos Estados Unidos, essa postura não passa despercebida. Ela gera vínculo real, cria comunidade e, honestamente, reafirma o que qualquer estrategista de cultura já entendeu: sem comunidade, nenhuma marca cultural se sustenta
O fandom delas (ou o nosso, se me permitem falar em primeira pessoa e, aqui, me revelar como um fã gigantesco) é um espetáculo sociológico à parte. Multicultural, hiperconectado, cheio de subculturas internas, com aquela energia de quem acredita que chegou cedo o suficiente para dizer que viu tudo nascer. É o tipo de comunidade que ao mesmo tempo que cria threads de apreciação às meninas, faz recortes de lives e bobagens que elas falam, monta edits marcantes e viraliza thirst tweets, também discute posicionamento de marca e business sem nem perceber, transformando cada aparição do KATSEYE na mídia em uma conversa sobre cultura contemporânea. É, essencialmente, a infraestrutura emocional que sustenta artistas na era digital.
No fim das contas, o mais fascinante é como o grupo funciona simultaneamente como entretenimento e como narrativa cultural. As músicas são só uma parte do que elas entregam. O resto é experiência, estética, discurso, identificação, estilo de vida e, principalmente, contexto. É aquilo que o marketing tenta capturar em alinhamentos e reuniões intermináveis, mas raramente consegue executar no mundo real. O KATSEYE consegue. E consegue porque não há dissonância entre quem elas são de verdade e quem precisam ser publicamente. Existe alinhamento entre essência, discurso e execução, o sonho de qualquer estrategista de marca.
Se cultura pop é reflexo do espírito do tempo, elas talvez sejam uma das imagens mais nítidas que recebemos dele recentemente. E, sinceramente, eu não sei se isso diz algo sobre elas, sobre nós ou sobre essa espécie de simbiose entre internet e identidade. Mas sei que diz muito sobre o futuro do entretenimento, onde autenticidade deixou de ser diferencial e virou infraestrutura cultural.
Se tem algo que KATSEYE deixa claro é simples: quando autenticidade vira estratégia, ela pode até ser fabricada, mas continua irresistível. E com tudo isso eu posso dizer que God really blessed our girlies.


